Quando dois factos mais um tomados em conjunto

... perturbam e questionam a forma habitual do nosso insustentável modo de vida:

  1. Ficamos a saber ontem, 19 de junho de 2018, através de um comunicado da Agência Lusa que Portugal teve um consumo 'per capita' nos 83% da média da UE em 2017. Notícia divulgada pelo Eurostat que obteve destaque na totalidade dos órgãos de comunicação social nas suas páginas de economia indexando este indicador à melhoria do bem estar material das famílias portuguesas.
  2. No dia 16 de junho, três dias antes, ficamos também a saber que Portugal esgotou os recursos naturais que "teria" disponíveis para este ano.

Ora desfasados no tempo estes dois acontecimentos significariam simplesmente, usando 1., que a generalidade dos portugueses consomem mais e estão do ponto de vista material melhores e que o seu bem estar melhorou, e, por 2., que necessitamos de usar os recursos do nosso planeta de uma forma sustentável permitindo a regeneração da bioesfera mantendo a sobrevivência da humanidade dentro da biocapacidade do planeta em que vivemos (não o estamos a fazer).

Se ficássemos por aqui recordaríamos amanhã duas coisas: que estamos melhores consumindo e que precisamos de escolher um modo de vida ecologicamente sustentável.

E repare-se na contradição.

Os dados da footprintnetwork.org mostram que a pegada ecológica da totalidade dos países europeus excede a biocapacidade do planeta. 83% deveria ser uma má notícia e esse indicador não deveria estar associado à melhoria do bem estar da população. É apenas boa notícia por ser um valor abaixo da média, um sofrível valor ecologicamente saudável.

Ora se a sustentabilidade é a possibilidade de todas as pessoas viverem vidas recompensadoras dentro capacidade de regeneração do ecossistema do nosso planeta então desde meados dos anos 80 do século passado que vivemos uma vida insustentável.

Apesar do consenso relativamente alargado e geral de que é necessário um desenvolvimento global sustentado, a economia global continua numa forma de um bussiness as usual e falha na condição mínima mais fundamental — que a subsistência da humanidade num ecossistema se mantenha dentro da capacidade máxima de regeneração da biosfera. Em 2002 a humanidade como um todo funcionou num regime que superou em 20% a capacidade de regeneração de um ano do ecossistema do nosso planeta.

Corrigir a trajectória do desenvolvimento humano para um caminho mais sustentável e de preservação do planeta obrigará uma nova forma de gerir a alimentação humana, repartir o consumo de energia e mantendo ou aumentando a produtividade dos ecossistemas naturais e de agricultura.

Deixemos pois de associar o consumo e o bem estar material à condição suficiente para o nosso bem estar geral. É insustentável.

P.S.

Tomar o indicador "consumo" como um "indicador de bem estar" é no mínimo enviesar o conceito de bem estar. Como indicador é não-ecológico, não-inclusivo, não-igualitário Precisamos de deixar de medir o nosso bem estar por medidas associados aqueles que materialmente mais têm.

Este ano (2019) "gastamos" tudo mais cedo. Isto não vai lá com meliorismos. Percebem?

Criado/Created: 20-06-2018 [15:32]

Última actualização/Last updated: 19-07-2019 [12:12]


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(c) Tiago Charters de Azevedo