Dose diária recomendada

Notas em cerca de 1600 caracteres. Coisas poucas que entretêm e espalham incomodações a quem delas precisar e sempre em nome pessoal porque é sempre bom dizer ao que vamos e quem somos para que não fique nada por dizer.

Imagem: Knuth's Downloadable Graphics page

As doses antigas estão arquivadas de uma forma não linear. O RSS está aqui.


Modelos de que gosto
2019/07/19-11:53:55

Não podemos apenas aprender a fazer modelos matemáticos lendo um livro. Devemos fazê-lo para aprender a apreciar a agonia e o êxtase subjacente à actividade.

Gostar da experiência que se obtém todos os dias e de dia após dia planear o próximo passo ou da próxima hipótese a confirmar. Para ver se resulta.

Não é o mesmo que saltar uns parágrafos no livro.

Pode escrever-se um livro sobre isso.

Ninguém aprende a ser um pintor lendo apenas livros de arte, olhando para reproduções de quadros famosos. Um livro escrito com este propósito será certamente educacional mas não há nenhuma razão para pensar que ensinará um alguém a ser um artista.

Posso até argumentar que terá o efeito contrário, chateando alguns e direcionando outros para longe de qualquer criatividade. Acredito mesmo que, embora tal livro tenha algum mérito, o artista e o "modelador matemático" deve arranjar as suas ferramentas de uma outra fonte.

Os livros têm um papel fundamental mas não exclusivo.


A verdadeira alegria
2019/07/14-23:00:36

Descreve Francisco de Assis em que consiste a verdadeira alegria, suportar todas estas coisas pacientemente e com alegria, levado ao chão e ser arrastado enquanto nos batem com um pau.

Assim muitos são os que não nos conhecendo nos desprezam e nos atacam confirmando mais uma vez a necessidade constante da defesa da liberdade de expressão.

Não são grandes nem pequenos, muito menos nem relevantes ou irrelevantes. Cumprem um papel que escolheram e refugiam-se nele.

Vermes essenciais à manutenção do ecossistema. Revolvem a terra e na terra permanecem.

Ainda bem que não os conheço.

Nem o desejo.


Assunto arrumado
2019/07/10-11:10:51

Não há nenhuma ameaça à liberdade de expressão. Não é à toa que os mais intolerantes afirmem o contrário. Porque lhes dá jeito. Porque querem aparecer e ser visíveis ou tornar-se visíveis. É fácil seguir esse caminho a descer e as redes digitais empurram.

Há debates que já foram feitos: direitos humanos, liberdade e igualdade. É para todos.

Até mesmo esses admitem que há debates que não valem a pena ser reabertos. Como se a terra plana ou esférica (nenhum dos casos na realidade) ou se há bruxas.

Os defensores intransigentes da liberdade de expressão não entendem a motivação daqueles que não querem ter certas conversas e vêm nisso uma marca de intolerância. Mas não podiam estar mais enganados. Há debates que não merecem ser reatados. Para que o diálogo público faça algum progresso é importante reconhecer quando um debate em particular já foi ganho. É deixá-lo estar.

Não há intolerância. O assunto é que já está arrumado. Podem estar em desacordo mas isso não significa que se esteja contra a liberdade de expressão.

O problema da defesa intransigentemente da liberdade de expressão é que funciona sempre como argumento para calar qualquer argumento contra ela. É um truque de retórica inteligente.

Mas não passa disso.


A taxa fixa
2019/07/08-15:01:03

... de imposto falha porque quer resolver o problema da (des)complexificação da taxação de impostos, no entanto, como a experiência mostra, a complexidade não está na cobrança de impostos mas na complexidade da definição do que consideramos ser rendimento.

E por isso é razoável admitir que esta proposta esconde a verdadeira razão porque a direita a propõe. Para manter e acentuar as desigualdades. E é isto que convém explicitar porque não há liberdade sem igualdade de oportunidades e justiça fiscal.

Para além disso a proposta da flat rate não é mais do que puro marketing e que tem como principal objetivo concretizar a abolição da progressividade do imposto e que é do meu ponto de vista uma proposta inconstitucional.

A flat rate corresponde ao aumento linear do imposto cobrado em função do rendimento. É crescente (tem derivada constante) mas não é progressiva. Aliás também não é progressista.

Para ser progressiva devia ser qualquer coisa com número de condição não constante, e.g. uma exponencial.

ah e a concavidade está ao contrário. É para cima.


Homeopatia: a patranha
2019/07/06-18:15:39

A homeopatia é não científica.

Um dos seus princípios afirma que o efeito e a potência de uma substância aumenta com a diminuição da sua concentração. Isto é quando menos existir menos se dá pela falta dela. Esta frase tem muitas reverberações noutro contexto, mas não nos dispersemos.

Por exemplo usando este princípio se eu quiser adoçar um café devo colocar pouco açúcar. Faz sentido? Nenhum.

Logo segue também por este princípio que no limite, se o argumento for válido, e ñ é, colocar ZERO gramas de açúcar é a melhor forma de potenciar o efeito açucarado do açúcar e tornar o café super docinho.


Ciência cidadã
2019/07/04-19:06:28

Parte do mundo mudou. E isso aconteceu quando cada um de nós em sua casa com acesso a um computador, um micro-controlador e a componentes de electrónica básica pode fabricar o que quiser; derretendo plástico ou reciclando o plástico que tem como desperdício.

Claro que falo da da impressão 3D opensource, da questão da auto-replicação, da fabricação digital com recurso a ferramentas de software ou hardware aberto, da construção colaborativa, em rede e deslocalizada.

É uma tecnologia cidadã no sentido de partilhada e colaborativa como se o pretexto fosse o da introdução de uma tecnologia social, priviligiando-se a partilha de conhecimento e de construção, sobrepondo-se em muitos casos à qualidade do produto final e desprezando o acabamento, preferindo o caminho que se fez em vez do produto que se obteve no fim.

Científico porque usa ferramentas tecnológicas e científicas, de várias áreas: matemática e nas nas ciências da computação nos algoritmos, na informática nas linguagens de programação usadas, na electrónica nos microprocessadores e física dos materiais.

Os objectos que usamos todos os dias mostram o seu modo de fabrico na sua estrutura.

Muitas das estruturas e objectos são pensadas e desenhadas para serem fabricadas com ferramentas manuais.

E isso vê-se.

Mas o futuro está prestes a mudar. É só olhar a nossa volta.


Reconhecer
2019/06/27-00:37:29

O primeiro passo é reconhecer.

Reconhecer que o fim do crescimento económico nos países desenvolvidos é condição para impedir o aquecimento global.

Reconhecer igualmente a necessidade de reduzir o consumo de combustíveis fósseis e as suas implicações para o aquecimento global.

Reconhecer que de nada vale reconstruir-mos o sistema económico actual noutro. Construamos um novo de estabilidade, sustentabilidade e redistribuição. E que socorra os pobres numa base de ethos convivial e não apenas de criação riqueza. Convivialidade significa viver em harmonia com o nosso ambiente pessoal, cultural e social e reconhecer-las como parte importante da alegria, da justiça social e da sanidade ecológica. Fazemos parte de uma das gerações mais ricas que habitaram o planeta resta-nos agir com conhecimento e sabedoria para o deixarmos aos nossos filhos.

Reconhecer que devemos reorientar a economia reforçando o ordenado mínimo nacional e introduzir simultaneamente um máximo rendimento admissível.

Reduzir as complexidades dos benefícios fiscais e créditos fiscais promovendo a justiça social através da implementação de um rendimento básico universal financiado por impostos dando suporte a desempregados, cuidadores informais e a todos os que não podem ter um trabalho remunerado como crianças, estudantes, trabalhadores voluntários, idosos, pessoas com deficiência física ou mental e membros de famílias que as suportam e cuidam.

Reconhecer que o desemprego é um fenómeno incurável e que qualquer actividade que valha a pena é uma parte essencial da alegria de viver e que devemos reorientar a sociedade de forma a que o trabalho não remunerado em casa ou na comunidade (suportado por um rendimento cidadão) seja reconhecido como tendo um valor em si mesmo e intrínseco.

Reconhecer que precisamos de reduzir o consumo energético. Energia nuclear não é solução porque precisamos de nos desfazer dos desperdícios radioactivos. Descarbonificar os processos produtivos, isolar e aumentar a eficiência energética das nossas casas e edifícios. Apoiar intensamente a investigação científica em armazenamento energético. A nível pessoal sugiro uma ideia: roupas quentes e arranjar uma bicicleta.

Reconhecer a dependência nos combustíveis fósseis na produção de comida para consumo humano e a sua distribuição. Precisamos de aumentar a produção local, consumir menos carne e aproveitar o que as estações do ano nos oferecem.

Repensar como ganhamos dinheiro. De trabalho remunerado, sim; de investimento, sim; de especulação, não. Devemos perguntar-nos qual é o valor social que se obtém por compra e venda de acções nos mercados bolsistas? O mercado de escravos foi já considerado uma forma legítima de negócio, o trabalho infantil também. Ambos foram e são abusos excessivos. Talvez essa compra e venda de acções possam ser vistas desse prisma também, excessivas e abusivas: um lucro de um é a perda de outro.

Repensar a democracia. É o nosso bem mais precioso, a nossa defesa contra os autocratas e tiranos wanna-be. A liberdade de imprensa é uma parte importante dela, a liberdade de informar e a liberdade de debate sem enviesamento ideológico (seja de esquerda ou de direita) fazem parte da educação adulta.

Repensar a educação. Reconhecer que a escola e o curriculum oferecido contribuem hoje para o falhanço do mundo: bussines as usual, economistas chicos-espertos, empreendedores para alavancar exportações, trabalhadores obedientes e clericais altamente classificados e com *skills em computadores; o foco no modo de competição, uma cultura *me-first* e uma sociedade regulada por uma elite selvagem. Tudo isto surge com frequência em vez de desenvolvimento de bem estar físico, destreza cognitiva, sensibilidade social, habilidades sociais e entendimento ambiental, merecemos melhor qualidade de vida baseada em valores conviviais e conhecimento cultural e que tem com muitos ramos. Como cidadãos precisamos de obter um modo de vida colaborativo e sustentável baseado numa reflexão crítica da sociedade. São assuntos para uma vida de aprendizagem que deve começar na escola e ser vividos alegremente. Muito pouco disto ocorre nas nossas escolas. Precisamos de escolas verdadeiramente comunitárias com as decisões educativas e que sejam tomadas colegialmente, suportadas e financiadas pelos governos mas não controladas por estes..


What on Earth
2019/06/26-10:21:07

... is the Doughnut?


Para além
2019/06/25-16:07:01

... de todas as considerações estruturais estamos perante a necessidade de dar um significado ecológico as todas estas sensibilidades prementes.

Hoje a nossa imaginação associada ao desenvolvimento científico-tecnológico é muitas vezes utilitária e cega à maior parte da experiência que está à nossa volta e da exigência de que necessitamos para a nossa sobrevivência como espécie.

Se não existir uma consciência da nossa inclusão natural no planeta, uma casa com painéis solares representa apenas uma habilidade em diminuir o consumo de energia e um truque financeiro, de uma cegueira ecológica como uma sistema de canalização barato.

Pode parecer um investimento sólido e até um avanço ambiental porque usa "fontes de energia renováveis" mas mostra ainda que se usa a natureza como mero recurso natural. Exibe as preocupações sensíveis de um engenheiro mas não a de um individuo ecologicamente sensível.

Uma horta orgânica pode muito bem ser uma "investimento" nutricional e permitir cultivar alimentos com maior qualidade do que aquela que obtemos num supermercado mas se estamos apenas preocupados com o valor nutricional da comida, a plantação orgânica é apenas um estratagema técnico de consumo alimentar.


Energia e equidade
2019/06/25-16:05:30

"A human being traveling on a bicycle at 16–24 km/h, using only the power required to walk, is the most energy-efficient means of human transport generally available." - Wikipedia

Duas palavras usualmente consideradas sem correlação efectiva, ao contrário do que dizia Illich.


On the Phenomenon of Bullshit Jobs: A Work Rant
2019/06/25-16:04:52

"It's as if someone were out there making up pointless jobs just for the sake of keeping us all working. And here, precisely, lies the mystery. In capitalism, this is precisely what is not supposed to happen. Sure, in the old inefficient socialist states like the Soviet Union, where employment was considered both a right and a sacred duty, the system made up as many jobs as they had to (this is why in Soviet department stores it took three clerks to sell a piece of meat). But, of course, this is the sort of very problem market competition is supposed to fix. According to economic theory, at least, the last thing a profit-seeking firm is going to do is shell out money to workers they don't really need to employ. Still, somehow, it happens." - David Graeber

Read it.


Inexorable march toward utter climate disaster
2019/06/25-16:04:26

"the evolution of CO2 emissions and the economy in the past half century leaves no room to doubt that emissions are directly connected with economic growth. The only periods in which the greenhouse emissions that are destroying the stability of the Earth climate have declined have been the years in which the world economy has ceased growing and has contracted, i.e., during economic crises. From the point of view of climate change, economic crises are a blessing, while economic prosperity is a scourge." - Inexorable march toward utter climate disaster?, Granados


Moving outside this zone are illusory
2019/06/25-16:03:16

This paper examines the provenance of the ‘comfort zone’ and argues that the claimed organisational and psychological benefits associated with moving outside this zone are illusory and unsupported by empirical evidence.

Indeed, it will be suggested that such rhetoric, and the lean management practices it has informed, is based on a misreading of the theoretical models and findings from which it is derived. It is argued that this misreading reinforces a style of management based on the deliberate inducement of stress amongst employees in lean organisations. The paper concludes by considering if, how, and what employees might be able to recover from this double bind.


Os sistemas IoT
2019/06/25-15:56:02

... consistem essencialmente em três partes.

  1. o aparelho inteligente em si mesmo e que é capaz de comunicar via um protocolo pré definido com ou sem um sistema operativo;
  2. um serviço remoto providenciado pelo fabricante do aparelho; o aparelho comunica com o prestador de serviço de modo a recolher informação sobre o estado de funcionamento permitindo ao utilizador controla-lo e usá-lo;
  3. uma aplicação remota que corre num aparelho móvel e que permite ao utilizador interagir e controlar o aparelho mesmo que não esteja perto dele.

Um proposta em linha com as ideias da Free Software Foudation e que garanta a liberdade de quem usará, ou já usa, estes aparelhos em casa:

  1. que o protocolo de comunicação e a documentação seja implementada sob uma licença aberta (Creative Commons) em vez da habitual protecção por patente;
  2. o dono do aparelho deve poder substituir o software com outras implementações feitas por ele ou por outros de modo a prevenir abusos de posição e dependência de um único vendedor, evitando falhas de serviço e garantindo a sua liberdade;
  3. toda a cadeia de software deve ser implementada em software livre, tornando mais simples a investigação e correcção de bugs, a manutenção da privacidade individual, e permitindo que outros possam providenciar implementações alternativas. Tudo isto permitirá aos utilizadores garantir o controlo do aparelho à medida que estes aparelhos são integrados em nossas casas.

Simples.


O que é esta entidade estranha
2019/06/23-11:18:06

... a linguagem e de onde é que veio? O que é ninguém o diz. Que evoluiu apenas de modo a incorporar as propriedades daquilo a que lhe chamamos.

As linguagens evoluíram espontaneamente através de uma evolução natural processada fora do cérebro humano. Tornou-se por isto na coisa mais bem adaptada às pessoas; tal qual parasitas mas num ciclo familiar de co-evolução.

Ou então vírus, usando uma analogia mais exacta.

Mas ninguém acreditaria, ou teria a ousadia de propor, que o sistema visual de um insecto ou mamífero se desenvolveria espontaneamente fora de qualquer um deles por uma mutação rápida agarrando-se a um hospedeiro, providenciando as capacidades visuais de moscas ou ratos.

Ou até humanos.


A questão da inevitabilidade
2019/06/22-13:12:49

... pode ser um projecto de pesquisa para toda a vida. A coerência política, se vale alguma coisa, é hoje mais evidente. A emergência social global, no nosso país também, os problemas do aquecimento global e o caos económico.

Precisaríamos de uma forma de vida na qual as pessoas ganhariam qualidade de vida em equilíbrio consigo próprias, usufruindo da sua felicidade num equilíbrio social, cultural e com o meio ambiente.


Sobre a questão
2019/06/20-15:45:35

"Ou achas que as pessoas o vêm de outra forma?"

Não há volta a dar, penso eu, no combate ao racismo que não passe por uma oposição sistemática a racistas, fascistas e à extrema direita. Da mesma forma que não se anda de bicicleta não pedalando ou se consegue aparafusar desaparafusando.

Há muitas formas de ver a coisa e que a posição positivista exclui parte de uma formulação que permite responder à necessidade de alterar o estado de coisas para um conjunto de concidadãos que sofrem todos os dias exclusão, perseguição e desprezo.

Ora se as perguntas que se quereriam incluir nos censos correspondem a categorias baseadas apenas em teorias racistas primárias e se são estas as categorias usadas no inquérito então, por um argumento de coerência, não vejo como é possível usar outras sem desvirtuar ou comprometer a solução que procuramos, porque afinal são essas categorias primárias que são necessárias desfazer.

Podemos sempre arranjar outras categorias mas se a inconsistência é uma característica essencial em qualquer proposta política então esta é aquela que permitirá resolver lidar com o problema do racismo.

Querer combater o obscurantismo e falta de rigor científico de certas posições só com neo-positivismo não vamos lá.

E isso como dizia inicialmente "não vejo de outra forma" aplica-se tb aqui. ;)


Escapar ao positivismo
2019/06/19-18:05:35

Claro, como dizia Wittgenstein, o mundo é a totalidade dos factos. Mas faltam os valores. A realidade pode forçar-nos a acreditar em certas coisas porque elas estão à nossa frente, quer queiramos quer não. Mas a realidade não nos obriga a desejar ou acreditar em alguma coisa i.e. numa delas em particular.

Não podemos dizer que os carris de um comboio determinam a forma da coisa que por lá anda. Os carris em geral não mudam a sua forma quando algo caminha sobre eles. Se assim fosse seria impossível afirmar para onde se dirige um comboio.

Podemos olhar para uma lei natural da mesma forma. Se não se verifica temos duas formas de perceber isso: comparando com os carris e dizer que os carris estão tortos, ou admitir que não conhecia-mos bem os carris.

Logo dizer que uma lei natural compele às coisas ser como são é de alguma forma um absurdo.

Mas então falar de valores pode querer dizer exactamente que falamos dos nossos desejos.


Da consistência
2019/06/19-17:12:46

Uma proposta política vai muito para além do exercício sistemático da lógica de primeira ordem. Os "princípios" a que nos sujeitamos (será) são muito mais do aquilo que pensamos individualmente que eles são.

De outra forma... não parece que a consistência de um sistema formal no sentido de Godel, que uma afirmação e o seu contrário não possam ser provados por uma mesma teoria, se aplique a programas políticos.

Aliás penso mesmo que a inconsistência é uma característica essencial em qualquer proposta política.


A proveniência
2019/06/15-23:53:36

... desta ideia de que devemos sair da nossa zona conforto e que é tão aclamada pelo seu benefício psicológico e organizacional não é mais do que uma ilusão. É apenas uma forma de induzir um certo grau de stress nos trabalhadores. E que beneficia a quem ela recorre para aumentos de produtividade.

E de exploração.

E é só isso.


Quando dois factos mais um tomados em conjunto
2019/05/25-17:09:45

... perturbam e questionam a forma habitual do nosso insustentável modo de vida:

  1. Ficamos a saber ontem, 19 de junho de 2018, através de um comunicado da Agência Lusa que Portugal teve um consumo 'per capita' nos 83% da média da UE em 2017. Notícia divulgada pelo Eurostat que obteve destaque na totalidade dos órgãos de comunicação social nas suas páginas de economia indexando este indicador à melhoria do bem estar material das famílias portuguesas.
  2. No dia 16 de junho, três dias antes, ficamos também a saber que Portugal esgotou os recursos naturais que "teria" disponíveis para este ano.

Ora desfasados no tempo estes dois acontecimentos significariam simplesmente, usando 1., que a generalidade dos portugueses consomem mais e estão do ponto de vista material melhores e que o seu bem estar melhorou, e, por 2., que necessitamos de usar os recursos do nosso planeta de uma forma sustentável permitindo a regeneração da bioesfera mantendo a sobrevivência da humanidade dentro da biocapacidade do planeta em que vivemos (não o estamos a fazer).

Se ficássemos por aqui recordaríamos amanhã duas coisas: que estamos melhores consumindo e que precisamos de escolher um modo de vida ecologicamente sustentável.

E repare-se na contradição.

Os dados da footprintnetwork.org mostram que a pegada ecológica da totalidade dos países europeus excede a biocapacidade do planeta. 83% deveria ser uma má notícia e esse indicador não deveria estar associado à melhoria do bem estar da população. É apenas boa notícia por ser um valor abaixo da média, um sofrível valor ecologicamente saudável.

Ora se a sustentabilidade é a possibilidade de todas as pessoas viverem vidas recompensadoras dentro capacidade de regeneração do ecossistema do nosso planeta então desde meados dos anos 80 do século passado que vivemos uma vida insustentável.

Apesar do consenso relativamente alargado e geral de que é necessário um desenvolvimento global sustentado, a economia global continua numa forma de um bussiness as usual e falha na condição mínima mais fundamental — que a subsistência da humanidade num ecossistema se mantenha dentro da capacidade máxima de regeneração da biosfera. Em 2002 a humanidade como um todo funcionou num regime que superou em 20% a capacidade de regeneração de um ano do ecossistema do nosso planeta.

Corrigir a trajectória do desenvolvimento humano para um caminho mais sustentável e de preservação do planeta obrigará uma nova forma de gerir a alimentação humana, repartir o consumo de energia e mantendo ou aumentando a produtividade dos ecossistemas naturais e de agricultura.

Deixemos pois de associar o consumo e o bem estar material à condição suficiente para o nosso bem estar geral. É insustentável.

P.S.

Tomar o indicador "consumo" como um "indicador de bem estar" é no mínimo enviesar o conceito de bem estar. Como indicador é não-ecológico, não-inclusivo, não-igualitário Precisamos de deixar de medir o nosso bem estar por medidas associados aqueles que materialmente mais têm.

Este ano (2019) "gastamos" tudo mais cedo. Isto não vai lá com meliorismos. Percebem?


Governação Livre e Acesso Aberto
2019/04/06-22:50:00

Neste pequeno texto gostaria de referir um dos pontos mais relevantes do nosso programa. Um ponto que está para lá escondido na trigésima sétima página com o título: “Governação Livre e Acesso Aberto”. Tem apenas um parágrafo mas encerra nesse pequeno espaço uma liberdade e a possibilidade da sua concretização que se tornou muito relevante nos nossos dias. A utilização de software.

É o que muitos de nós andamos a fazer todos os dias, numa utilização mais privada ou numa interacção com serviços públicos. É uma constante.

Começo por aqui, pelo software.

Há um princípio bem estabelecido em programação, do qual não sou adepto, que nos diz que os elementos de um programa de computador não devem ser muito grandes e que se deve pois parti-lo em bocados mais pequenos partindo de-cima-para-baixo. Se um programa é muito grande ou cresce acima de um determinado tamanho a sua complexidade cresce também e assim aumenta também a possibilidade de erros permanecerem ocultos. Mas não é por parti-lo em pedaços mais pequenos que coisa melhora porque um conjunto de procedimentos monolítico desse tipo será difícil de ler, difícil de implementar e difícil de corrigir. Se não os podermos alterar, olhar lá para dentro, então a implementação deixa de ser difícil e passa a ser impossível.

A metáfora subjacente é facilmente replicável a programas eleitorais ou modelos de governação nada libertários, diga-se.

O nosso programa é diferente. E não é por acaso.

É diferente porque ao contrário da técnica anterior o nosso programa foi construído de-baixo-para-cima: alteramos a linguagem para se adaptar ao problema. Reuniram-se esforços, reuniram-se propostas e discutiram-se. Usamos problemas reais não só para construir um programa, mas levamos a forma de os resolver no programa até aos problemas reais.

No fim o programa tem a forma final numa linguagem comum aos problemas que queremos resolver. Como se tivesse sido feito propositadamente para eles. E pois foi.

Mas de que problemas e de que princípios falamos quando se fala em “Governação Livre e Acesso Aberto”?

Falamos no direito de usar, estudar, partilhar e melhorar software. Falamos de um princípio que suporta a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a privacidade. Falamos em recursos públicos e em autonomia.

Volto à governação livre e aberta. O que significa então e o que implica.

Implica a introdução de software livre e de código aberto em todos os níveis da administração pública ou em instituições financiadas com recursos públicos.

Implica a poupança em impostos através da reutilização de software.

Implica a colaboração técnica de comunidades em projetos e a partilha de custos.

Implica a transparência de processos e fundação de investigação para que não seja sempre preciso inventar a roda.

E finalmente a questão fundamental política de princípio: que a dinheiros públicos deve corresponder e financiar software livre e logo público.

E assim usar a tecnologia como veículo de transparência.

Simples.


Dois artigos
2019/04/06-22:29:45

... que em conjunto dão para escrever um todo programa político.

On the age of computation in the epoch of humankind

"Human actions have attained dimensions comparable to the natural processes in the Earth system and will have long-lasting biophysical effects of geo-historical significance." - https://www.nature.com/articles/d42473-018-00286-8

The origins of the sharing economy

"It doesn’t require an economics degree to realize that allowing landlords to make a killing by converting their properties from long term to short term rentals will drive up rents and housing prices. Why didn’t we see it coming?"


No centro do hardware open-source está a liberdade de informação
2019/04/06-11:44:24

Estamos pela nossa curiosidade inerentemente motivados a abrir os nossos devices, gadgets, electrodomésticos ou máquinas na mesma medida em que gostamos de ver como funcionam. Não existem leis que nos proíbam de desaparafusar e de os retirar para fora da caixa. Embora possamos por isso perder ou quebrar a garantia.

A liberdade para reparar, a liberdade para estudar e a liberdade para perceber precisa de ser acompanhada pela liberdade de acesso à informação: esquemas, diagramas, código fonte são uma pré-condição para estas liberdades todas. O hardware aberto inclui todas as liberdades anteriores e também nos dá por definição a liberdade para alterar, remanufacturar e revender essa coisa desde que esse hardware permaneça sob a mesma licença i.e. aberto.

Temos hoje acessível uma grande quantidade de manuais de reparação de carros, máquinas de lavar, desenhos de modelos de aviões, roupa, receitas que partilhamos com família e amigos ao longo de muitas gerações. Durante muitas gerações e.g. a do meu avô, o faça-você-mesmo (em inglês do-it-yourself, DIY) não era um aborrecimento mas quase um modo de vida. O acesso a informação acoplado a um conhecimento básico de como as coisas funcionam dá-nos hoje o poder de reparar mais, desperdiçar menos e perceber melhor, pela tecnologia, o mundo físico à nossa volta. Mas a tecnologia tem-se tornado mais opaca à medida que o tamanho das máquinas que usamos diminui e a miniaturização invade as nossas vidas. Torna-se cada vez mais difícil abri-las e ver como funcionam.

Antigamente era fácil abrir as coisas porque os métodos de fabrico eram pouco automatizados ou industrializados e tudo se fabricava a uma escala humana. É uma escala na qual nos relacionamos com o mundo à nossa volta e na qual podíamos ver apenas com os nossos olhos sem precisar de hardware extra. E.g. os botões da nossa aparelhagem de som têm um limiar de tamanho, mais pequenos e não conseguiríamos usar os dedos para alterar o volume da música.

A escala dos objectos prévia à era da computação em que vivemos tinha essa escala. As coisas que hoje usamos todos os dias têm chips minúsculos, software e até estruturas de montagem que requerem esquemas de montagem complexos e é necessário software para os perceber, reparar ou até para entendermos como funcionam.

Talvez esta problemática seja melhor entendia pelos investigadores que usam aparelhos fechados ou patenteados. Não há nenhum requesito para que se inclua ficheiros fonte de modo a que se perceba o hardware e que possa ser reparado localmente. Em muitos casos é mesmo reforçada a ocultação ou ofuscamento da informação ao consumidor.

Se a história sempre favoreceu em algum tipo de produtos o open-source e a reparação porque estamos nós a construir um movimento open-hardware? Em parte porque o sistema de patentes tornou-se um entrave à inovação. Pequenas partes tecnológicas inovadores e essenciais são bloqueadas por patentes e provocam um aumento do custo no desenvolvimento e toldam a inovação. Tudo isto enquanto se beneficia uma empresa em particular e se prejudica o progresso da sociedade como um todo. Hoje a propriedade intelectual pode ser vendida como um bem físico, como uma mercadoria. Vendem-se ideias em vez de bens materiais e como é bem evidente isso não é bom para ninguém.

As patentes foram criadas para proteger o autor e a sua inovação original numa altura em que a democratização da cultura, do ensino e da ciência era inexistente ou dava os primeiros passos. Essa protecção garante ao autor 20 anos de direitos exclusivos e de monopólio.

Para ser atribuída uma patente o autor deveria submeter um protótipo e explicitar ao público como foi a inovação criada. Mas as regras para a atribuição de patentes foram sendo alteradas ao longo do tempo e não são poucas as pessoas que admitem que o sistema de patentes que temos hoje já não reflecte o espírito original aquando da sua criação.

No sistema actual de patentes os protótipos já não são necessários e o rendimento gerado pela invenção não vai para os inventores mas para firmas de advogados. Gera um monopólio de 20 anos que simplesmente deixou de fazer sentido na era digital e globalizada em que vivemos e, mais importante, num mundo onde a formação científica e tecnológica tem uma grande distribuição geográfica e se distribuí por tantas classes sociais. Foi por isso que muitos inventores encontraram no hardware aberto incentivos diferentes para inovar. As barreiras e frustrações que o sistema de patentes criou levou ao aparecimento de uma alternativa ao sistema de inovação que as patentes concretizavam no passado: o hardware open-source. Darwin teria gostado deste fenómeno.

Em vez de monopólios o hardware open-source cria produtos baseado num ambiente aberto, descentralizado graças à web e na partilha de informação. Mostra que neste modo há sempre oportunidades de empresas e indivíduos aprenderem uns com os outros.

É um movimento que tem crescendo e um modelo de negócio lucrativo. Alastrou-se para muitas áreas de inovação e desenvolvimento.

Estamos num ponto crítico na história da evolução da tecnologia que determinará se continuamos a colectar informação e conhecimento ou o partilhamos com o resto dos nossos concidadãos; vendemos informação ou vendemos mercadoria; educamos com documentação aberta ou deixamos cada um reinventar a roda sozinho?


Se há coisa
2019/03/16-13:18:08

... que as grandes transições nos mostram é que as mudanças importantes são sempre acompanhadas por uma grande de dose de espontaneidade. Essas mudanças quando não suportadas por factos científicos ou consensos sociais são normalmente impostas com agressividade e desprezo.

A primeira foi aquilo a que assistimos na manifestação global na "Climate Strike", a segunda a vontade daqueles que desprezaram a iniciativa para que tudo permaneça convenientemente na mesma. Não percebem quanto da nossa liberdade individual depende da estabilidade do ecossistema em que vivemos. E por isso os que atacaram os estudantes pela participação na greve climática, da esquerda à direita, nunca perceberão o que está à nossa frente: que o nosso futuro colectivo vale mais do que vosso lucro (frase de uma manifestante).

A mensagem da Amnistia Internacional expressa bem a mensagem. Que devemos protestar, ter direito a um futuro seguro, a uma justiça climática que pode muito bem ser entendida como um direito humano, a agir de acordo com as lições que aprendemos. E temos direito à mudança na participação. Todos juntos.

E por isso temos com que nos alegrar e explicitar que se às pessoas lhes for dado o poder de controlar as suas vidas coisas boas acontecem.


A história da Cinderela
2019/03/09-00:31:58

... não é, ao contrário da ideia geral, uma história original da Disney. É uma história geral que todos conhecemos e que é comum e conhecida em muitas partes do mundo.

Uma história popular de repressão sobre uma mulher e que tem no fim uma recompensa "triunfante". Vonnegut descreveria a história como uma história de que toda gente gosta e reconhece.

Essa história é preocupantemente apresentada em duas partes. A primeira onde uma mulher sofre uma diária repressão constante psicológica e física, obrigada a trabalhar sem remuneração, enclausurada na sua própria casa, obrigada a dedicar-se a tarefas domésticas, diríamos hoje trabalho reprodutivo, sem tempo livre para se divertir e no fundo sem tempo para viver. A segunda em jeito de recompensa cósmica é salva da sua vida miserável por um homem (deixemos assim pois o que leva a este final também trágico não é relevante para o resto).

Em 2009 Tim Jackson no livro com título "Prosperity without growth: economics for a finite planet" usava esta história popular para explicar a designação de um certo tipo de economia: a Economia Cinderela.

Dar o nome "Economia Cinderela" a uma "economia" é no mínimo bizarro. Que economia será então esta?

O termo Economia Cinderela é usado para descrever uma economia desprezada que assenta na margem da nossa sociedade de consumo. Uma economia que dá aos produtores e consumidores, e aqueles que nela participam, uma grande sensação de bem-estar e realização pessoal. Uma sensação muito maior do que aquela que e.g. se poderia obter baseada numa economia consumista e materialista de supermercado.

Uma economia que repousa em actividades com baixas taxas de emissão de carbono e que emprega pessoas que contribuem de uma maneira com significado para o desenvolvimento pessoal e humano. Uma actividade essencialmente humana i.e. de contacto humano.

Estas actividades existem e são comuns e raramente são reconhecidas como actividades económicas num sentido formal do termo. Empregam muitas vezes pessoas em regime de part-time ou de uma forma voluntária e são muitas vezes de actividade física intensiva como por exemplo: tomar conta de crianças, de idosos, cozinhar, limpar, etc, ... Actividades importantes e fundamentais para a vida em comunidade sem as quais muito provavelmente o nosso modo de vida não se manteria caso desaparecem.

A parcela contabilística para o BIP é "quase nula" ou nem sequer é contabilizada.

Nesta economia os produtores são maioritariamente mulheres. Consumidores? O resto da sociedade.

Até do ponto de vista convencional a economia Cinderela tem uma formulação problemática e.g. a margem para o aumento de produtividade é quase nula e a robotização não lhe serve para nada. Pois aqui é a interacção humana que é a condição de existência dela, a redução de trabalho neste tipo de actividades humanas não faz nenhum sentido. É assim fácil de perceber porque é que foi deixada à margem da nossa sociedade de consumo e que não tem nela lugar, porque não permite aumentos de produtividade, numa economia que privilegia o crescimento.

Mas retomo a história da Cinderela. A utilização do termo economia Cinderela capta muito bem então a mensagem da história popular. A de que há alguns membros na nossa sociedade que têm este modo de vida e que são maioritariamente mulheres.

Mas a história ficcionada (será assim tão ficção?) também acerta noutra coisa. Mostra no final a personagem que na realidade domina a sociedade em que a mulher vive. Um príncipe, um homem.

E é nesta economia Cinderela que muitas vezes identificamos a versão mais selvagem do capitalismo. Aquele que explora a desigualdade salarial entre homens e mulheres, aquele que obriga as mulheres a serem Cinderelas, a cuidar dos filhos sozinhas, das tarefas domésticas, dos pais idosos e de as obrigar a viver uma vida que não desejam (alguns dizem que é por amor, veja-se...). Não podem escolher.

As estatísticas estão disponíveis não as vou repetir.

São também elas as vítimas de abuso e de violência e na quase totalidade dos casos pelo príncipe encantado da história popular.

Hoje o dia foi de manifestações e protestos pela libertação e pelo reconhecimento do fim desta economia Cinderela.

Que o futuro seja feminista ou não será.


Comecemos pelas necessidades básicas
2019/03/04-15:14:00

... articulando ideias morais na nossa concepção de direitos humanos.

As pessoas têm necessidades que devem ser preenchidas: saúde, alimentação, abrigo e educação.

E devem também ter opções: procura de satisfação sexual consentida, ter filhos se quiserem, deslocar-se, exprimir e partilhar as suas ideias, ajudar a construir a sociedade que desejam e exercer a sua imaginação. Estas são opções, não são obrigatórias.

Existem também obstáculos que não devem ser impostos: dor sem sentido, estar expostas a conteúdos violentos, mutilação do próprio corpo, etc, ...

Reconhecer que todos temos direitos a ter as suas necessidade básicas satisfeitas, exercer certas capacidades humanas e estar protegido de certos males não é a mesma coisa que dizer como devem estas coisas ser garantidas ou obtidas.

Mas a que obrigações nos devemos sujeitar se aceitarmos que estas necessidades básicas devem ser garantidas?

Há restrições às respostas aceitáveis?


We need to live differently
2019/03/03-19:33:12

We do.

To end our fossil fuel addiction we need a fundamental technological change - but this cannot happen without changing our social and economic systems.


Notas para a conversa de hoje
2019/03/03-18:53:03

Decorreu na 6ª feira passada um evento extraordinário concretizado por pessoas comuns, realizado por cidadãos livres que se apresentam conjuntamente com a sua candidatura às primárias do LIVRE pelo círculo eleitoral de Lisboa.

São por isso extraordinárias.

O mesmo evento do Porto e em Setúbal já se realizou. O para a Europa, amanhã.

Apresentação + Motivação da Candidatura

Nasci em Lisboa, tenho 45 anos, casado e pai de dois filhos e de uma filha. Tenho um doutoramento em Física-Matemática pela FCUL e sou Professor do Ensino Superior Politécnico (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa) onde leciono disciplinas de Matemática.

Defendo a partilha e divulgação aberta do conhecimento científico e activista membro activista pelo free-software e opensource, divido a minha atividade letiva com a construção de um hackerpace e o tempo passado em família.

Céptico por construção e formação, prefiro a dissidência inteligente ao acordo passivo.

Ciclista urbano e guitarrista de blues no tempo que não tenho.

A minha motivação é simples de enunciar: acredito que quando é dado às pessoas, e não só a quem exerce a sua quota parte em democracia representativa, um verdadeiro controlo dos seu próprios assuntos e das suas vidas algo naturalmente emerge: o respeito, o consenso e a aceitação da diferença surge como o principal mecanismo de progresso e cooperação em vez da coação, do castigo ou da recompensa atribuída.

E nesse sentido que me parece que o acordo das esquerdas falhou até parece que a esquerda parlamentar ficou refém dos tempos que correm. Tecnocrata, que apenas trata dos seus assuntos ou da sua ideologia.

E por isso as perguntas: que sociedade queremos transcender? Que objectivos queremos atingir?

Não bastam já os clássicos do costume: paz, liberdade, integridade e humanismo, igualdade de oportunidades.

Apesar de serem esses aqueles cujas formulações mais estamos habituados.

Queremos igualdade na educação, na saúde, no acesso a bens, à habitação e num certo sentido utópico queremos acesso à felicidade. Ou como dizia o William Gibson: "o futuro é hoje e está é mal distribuído."

E num certo sentido ser-se de esquerda é perceber isso e lutar por uma distribuição igualitária do futuro.

Mas se os clássicos não bastam como se faz essa transcendência?

Onde falhou a actual solução de governo aka geringonça?

Falhou em não conseguir agregar as vontades da população e em particular a esquerda por ser de esquerda falhou em se circunscrever à questão da devolução ou restabelecimento dos rendimentos depois da brutal quebra de rendimentos impostos pela troika e pelo governo da direita-ir-para-além- da-troika.

Pouca mudança para tanta esperança depositada num acordo histórico da esquerda.

Ficou por fazer, na

e por fim

O que LIVRE pode trazer à Assembleia da República?

De uma forma muito resumida. Quatro pilares baseados na autonomia individual

A que comissão parlamentar gostariam de pertencer e porquê?

Comissão de Educação e Ciência

Propostas concretas:


Os sistemas dominantes
2019/02/26-18:30:46

... de pensamento no século passado dão-nos alguns fragmentos e pistas para remediar ou tratar dos problemas que encontramos hoje.

O comunismo oferece-nos uma igualdade expressa à custa do sacrifício da liberdade individual.

O capitalismo oferece-nos a liberdade à custa da justiça social, da harmonia e do sentido essencial da partilha.

Tanto a esquerda como a direita oferecem-nos pistas de ou para uma filosofia mais forte.

A maior força da direita tem sido o apelo à iniciativa privada e à auto-expressão e a libertação do peso excessivo do estado. À esquerda o reconhecimento que não estamos separados uns dos outros, que a comunidade nos abraça e nos suporta e acolhe a todos, opondo-se à injustiça, desigualdades e ao egoísmo individualista. Estamos todos melhores juntos.

Ambas as abordagens evocam verdade fundamentais sobre a condição humana.

Mas as duas teorias económicas subjacentes ao capitalismo e ao comunismo ortodoxo oferecem-nos uma visão limitada e negativa da condição humana. Na teoria económica neo-clássica afirma-se sem evidência experimental, digamos assim, que cada um de nós é self-seeking, que queremos acima de todas as coisas a satisfação das nossas necessidades materiais: aquilo que em economia se chama de maximising utility. O objectivo máximo da humanidade seria então o crescimento económico e que isso seria conseguido através da mais pura e não regulada competição. Se as recompensas de um tal sistema são mal distribuídas e uma forma desigual ou irregular, esse é um preço inevitável a pagar.

Os nossos concidadãos neste planeta devem ser considerados ou como consumidores ou competidores ou factores de produção. Os efeitos ecológicos sobre o planeta neste prisma são meras externalidades do modelo sem reconhecimento do custo.

Em nenhum lado desta análise aparecem os actores cooperação humana, amor, confiança, compaixão ou ódio, curiosidade ou beleza. Em lado nenhum aparece o conceito de significado.

O que não pode ser economicamente medido é simplesmente ignorado numa ausência completa de a mais leve racionalidade económica.

Mas pode propor-se uma coisa diferente para a humanidade: que podemos confiar uns nos outros, nas pessoas que tratam das suas próprias coisas, que negoceiam umas com as outras, que regulam a sua própria sociedade de baixo para cima. Por regras morais, dito assim, em vez de coação ou castigo.

Que há algo de mais acessível que a fricção, o conflito e a vacuidade da nossa sociedade contemporânea.

Os cínicos argumentarão que uma tal confiança é despropositada e que o conflito é inevitável. Mas evidência mostra que em algumas ocasiões quando às pessoas lhes foi dado um verdadeiro controlo dos seu próprios assuntos o contrário aconteceu: o respeito, o consenso ou, no pior dos casos, apenas uma aceitação da diferença.

Se por um lado o desaparecimento de qualquer autoridade transformaria possivelmente a nossa vida numa guerra de todos contra todos, por outro lado a própria existência de um governo ou estado nos lembra repetidamente e quase todos os dias que as outras pessoas não são de confiança.

Formas hierárquicas de organização encorajam os piores comportamentos tanto no sector privado como no público, encorajam a arrogância dos "chefes" e a apatia e a indiferença dos "subordinados".

E tudo isto para quê?

Qual o objectivo de toda esta produção, competição e consumo?

Falam-nos da cultura do negócio que não nos conta mais do que a sua própria história de inautenticidade e aborrecimento do local de trabalho. Personalidades da TV/internet/redes sociais fingem que a água engarrafada que consomem lhes trarão aquele preenchimento espiritual que "procuram".

O método desenvolvido pelo marketing que nos procura reduzir na vertigem de um consumismo sem sentido e que agora se infiltra naquilo que se poderia chamar de "entretenimento" revela não só o seu cinismo mas também a vacuidade de toda esta ventura. Para além do material o capitalismo não aponta para lado nenhum, não tem sentido. E um sentido é o que todos desejamos.

E nenhum governo o pode fornecer por muito bem intencionado que esteja.

Não há outra hipótese se não procura-lo nós próprios.

E isto ainda demora algum tempo a perceber-se.

Notas soltas traduzidas do livro The Leaderless Revolution ~ Carne Ross


Texto de candidatura: Primárias 2019 LIVRE
2019/02/18-17:59:24

Vivemos num tempo em que a nossa sociedade vive como uma muleta do mercado, o estado social agrilhoado ou mais ou menos desmantelado por uma ideologia capitalista liberal e que domina todas as horas dos nossos dias e a esquerda é sua refém. Como se não existisse qualquer outra formulação possível para a nossa vida colectiva: o correr dos dias como um sumidouro de toda a vontade de mudança.

A esquerda estaticista encontra-se na defensiva sem programa concreto e sem um projecto mobilizador ou perspectiva de esperança. Quando participa é quase sempre em nome de uma coerência tecnocrata ou ideológica ou então por uma putativa eficiência mediando o capital de um lado e os trabalhadores por conta de outrem do outro. É uma esquerda socialista apenas no nome.

Mas então que esquerda queremos e de que esquerda precisamos? Podemos nós construir as condições para uma esquerda progressista e libertária?

Sim. Tenho certeza que sim desde que satisfeitas duas condições.

A primeira condição essencial é o internacionalismo, ou melhor, uma concepção trans-nacional de acções e políticas a desenvolver.

A segunda é que a esquerda deverá apresentar uma visão da sociedade que quer transcender e que objectivos quer atingir. Já não bastam os clássicos do costume: paz, liberdade, integridade e humanismo, igualdade de oportunidades e assim por diante.

Temos outra vez e de cada vez que vamos a eleições uma outra oportunidade. Não a podemos desperdiçar para construir uma esquerda mais livre e com práticas democráticas efectivas, um Portugal socialmente mais justo com um estado liberto dos parasitas interesses particulares que o capturaram e uma Europa mais fraterna à altura dos ideais que a formaram. E assim construir um modo de vida colectivo, partilhado, ecologicamente sustentado e consciente dos nossos limites naturais. Um modo no qual cada um possa usar o seu tempo naquilo que mais deseja e que transcenda as divisões sociais num programa que não se envergonha de reclamar a emancipação como seu principal objectivo.

Uma mudança libertária e social que nos inspire à mudança e à transformação.

Pelo exemplo.


Apoiar o Software-Livre
2018/11/26-12:10:13

... a nível nacional é necessariamente apoia-lo ao nível internacional e em particular, num primeiro passo, a um nível europeu. Pela sua natureza colaborativa e partilhada o software-livre é internacionalista e global. E público.

E por isso como primeira defesa do software-livre é necessário defender e tornar público aquilo que sempre deve ser público: o código construído com dinheiro público deve ser público, aberto e livre. E porquê? Porque necessitamos de ter controlo completo sobre o software que administra as nossas vidas. E não há melhor maneira de o fazer do que distribuir as contribuições, as vontades e esforços pelos nossos concidadãos.

Mas para além do controlo há mais: a abertura da tecnologia permitirá aumentar a transparência e transformar os bens públicos catalisando o abandono de práticas antigas que mantêm a opacidade e impedem a participação popular. E.g. adopção de formatos abertos, descentralização, robustez, interoperabilidade, etc, ...

É por isso, pelo menos para mim, fácil argumentar que as 4 liberdades individuais fundamentais do software-livre, o de execução, o acesso universal, modificação do código fonte e a redistribuição de cópias com ou sem modificações, são fundamentos práticos importantes a incentivar na escola e todos os dias. Fazia sentido há 30 anos atrás com a fundação do projecto GNU, faz hoje em pleno século 21 muito mais sentido.


Criado/Created: 2018

Última actualização/Last updated: 19-07-2019 [16:01]


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(c) Tiago Charters de Azevedo