No centro do hardware open-source está a liberdade de informação

Estamos pela nossa curiosidade inerentemente motivados a abrir os nossos devices, gadgets, electrodomésticos ou máquinas na mesma medida em que gostamos de ver como funcionam. Não existem leis que nos proíbam de desaparafusar e de os retirar para fora da caixa. Embora possamos por isso perder ou quebrar a garantia.

A liberdade para reparar, a liberdade para estudar e a liberdade para perceber precisa de ser acompanhada pela liberdade de acesso à informação: esquemas, diagramas, código fonte são uma pré-condição para estas liberdades todas. O hardware aberto inclui todas as liberdades anteriores e também nos dá por definição a liberdade para alterar, remanufacturar e revender essa coisa desde que esse hardware permaneça sob a mesma licença i.e. aberto.

Temos hoje acessível uma grande quantidade de manuais de reparação de carros, máquinas de lavar, desenhos de modelos de aviões, roupa, receitas que partilhamos com família e amigos ao longo de muitas gerações. Durante muitas gerações e.g. a do meu avô, o faça-você-mesmo (em inglês do-it-yourself, DIY) não era um aborrecimento mas quase um modo de vida. O acesso a informação acoplado a um conhecimento básico de como as coisas funcionam dá-nos hoje o poder de reparar mais, desperdiçar menos e perceber melhor, pela tecnologia, o mundo físico à nossa volta. Mas a tecnologia tem-se tornado mais opaca à medida que o tamanho das máquinas que usamos diminui e a miniaturização invade as nossas vidas. Torna-se cada vez mais difícil abri-las e ver como funcionam.

Antigamente era fácil abrir as coisas porque os métodos de fabrico eram pouco automatizados ou industrializados e tudo se fabricava a uma escala humana. É uma escala na qual nos relacionamos com o mundo à nossa volta e na qual podíamos ver apenas com os nossos olhos sem precisar de hardware extra. E.g. os botões da nossa aparelhagem de som têm um limiar de tamanho, mais pequenos e não conseguiríamos usar os dedos para alterar o volume da música.

A escala dos objectos prévia à era da computação em que vivemos tinha essa escala. As coisas que hoje usamos todos os dias têm chips minúsculos, software e até estruturas de montagem que requerem esquemas de montagem complexos e é necessário software para os perceber, reparar ou até para entendermos como funcionam.

Talvez esta problemática seja melhor entendia pelos investigadores que usam aparelhos fechados ou patenteados. Não há nenhum requesito para que se inclua ficheiros fonte de modo a que se perceba o hardware e que possa ser reparado localmente. Em muitos casos é mesmo reforçada a ocultação ou ofuscamento da informação ao consumidor.

Se a história sempre favoreceu em algum tipo de produtos o open-source e a reparação porque estamos nós a construir um movimento open-hardware? Em parte porque o sistema de patentes tornou-se um entrave à inovação. Pequenas partes tecnológicas inovadores e essenciais são bloqueadas por patentes e provocam um aumento do custo no desenvolvimento e toldam a inovação. Tudo isto enquanto se beneficia uma empresa em particular e se prejudica o progresso da sociedade como um todo. Hoje a propriedade intelectual pode ser vendida como um bem físico, como uma mercadoria. Vendem-se ideias em vez de bens materiais e como é bem evidente isso não é bom para ninguém.

As patentes foram criadas para proteger o autor e a sua inovação original numa altura em que a democratização da cultura, do ensino e da ciência era inexistente ou dava os primeiros passos. Essa protecção garante ao autor 20 anos de direitos exclusivos e de monopólio.

Para ser atribuída uma patente o autor deveria submeter um protótipo e explicitar ao público como foi a inovação criada. Mas as regras para a atribuição de patentes foram sendo alteradas ao longo do tempo e não são poucas as pessoas que admitem que o sistema de patentes que temos hoje já não reflecte o espírito original aquando da sua criação.

No sistema actual de patentes os protótipos já não são necessários e o rendimento gerado pela invenção não vai para os inventores mas para firmas de advogados. Gera um monopólio de 20 anos que simplesmente deixou de fazer sentido na era digital e globalizada em que vivemos e, mais importante, num mundo onde a formação científica e tecnológica tem uma grande distribuição geográfica e se distribuí por tantas classes sociais. Foi por isso que muitos inventores encontraram no hardware aberto incentivos diferentes para inovar. As barreiras e frustrações que o sistema de patentes criou levou ao aparecimento de uma alternativa ao sistema de inovação que as patentes concretizavam no passado: o hardware open-source. Darwin teria gostado deste fenómeno.

Em vez de monopólios o hardware open-source cria produtos baseado num ambiente aberto, descentralizado graças à web e na partilha de informação. Mostra que neste modo há sempre oportunidades de empresas e indivíduos aprenderem uns com os outros.

É um movimento que tem crescendo e um modelo de negócio lucrativo. Alastrou-se para muitas áreas de inovação e desenvolvimento.

Estamos num ponto crítico na história da evolução da tecnologia que determinará se continuamos a colectar informação e conhecimento ou o partilhamos com o resto dos nossos concidadãos; vendemos informação ou vendemos mercadoria; educamos com documentação aberta ou deixamos cada um reinventar a roda sozinho?

Criado/Created: 05-04-2019 [22:30]

Última actualização/Last updated: 19-07-2019 [12:12]


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(c) Tiago Charters de Azevedo