Os sistemas dominantes

... de pensamento no século passado dão-nos alguns fragmentos e pistas para remediar ou tratar dos problemas que encontramos hoje.

O comunismo oferece-nos uma igualdade expressa à custa do sacrifício da liberdade individual.

O capitalismo oferece-nos a liberdade à custa da justiça social, da harmonia e do sentido essencial da partilha.

Tanto a esquerda como a direita oferecem-nos pistas de ou para uma filosofia mais forte.

A maior força da direita tem sido o apelo à iniciativa privada e à auto-expressão e a libertação do peso excessivo do estado. À esquerda o reconhecimento que não estamos separados uns dos outros, que a comunidade nos abraça e nos suporta e acolhe a todos, opondo-se à injustiça, desigualdades e ao egoísmo individualista. Estamos todos melhores juntos.

Ambas as abordagens evocam verdade fundamentais sobre a condição humana.

Mas as duas teorias económicas subjacentes ao capitalismo e ao comunismo ortodoxo oferecem-nos uma visão limitada e negativa da condição humana. Na teoria económica neo-clássica afirma-se sem evidência experimental, digamos assim, que cada um de nós é self-seeking, que queremos acima de todas as coisas a satisfação das nossas necessidades materiais: aquilo que em economia se chama de maximising utility. O objectivo máximo da humanidade seria então o crescimento económico e que isso seria conseguido através da mais pura e não regulada competição. Se as recompensas de um tal sistema são mal distribuídas e uma forma desigual ou irregular, esse é um preço inevitável a pagar.

Os nossos concidadãos neste planeta devem ser considerados ou como consumidores ou competidores ou factores de produção. Os efeitos ecológicos sobre o planeta neste prisma são meras externalidades do modelo sem reconhecimento do custo.

Em nenhum lado desta análise aparecem os actores cooperação humana, amor, confiança, compaixão ou ódio, curiosidade ou beleza. Em lado nenhum aparece o conceito de significado.

O que não pode ser economicamente medido é simplesmente ignorado numa ausência completa de a mais leve racionalidade económica.

Mas pode propor-se uma coisa diferente para a humanidade: que podemos confiar uns nos outros, nas pessoas que tratam das suas próprias coisas, que negoceiam umas com as outras, que regulam a sua própria sociedade de baixo para cima. Por regras morais, dito assim, em vez de coação ou castigo.

Que há algo de mais acessível que a fricção, o conflito e a vacuidade da nossa sociedade contemporânea.

Os cínicos argumentarão que uma tal confiança é despropositada e que o conflito é inevitável. Mas evidência mostra que em algumas ocasiões quando às pessoas lhes foi dado um verdadeiro controlo dos seu próprios assuntos o contrário aconteceu: o respeito, o consenso ou, no pior dos casos, apenas uma aceitação da diferença.

Se por um lado o desaparecimento de qualquer autoridade transformaria possivelmente a nossa vida numa guerra de todos contra todos, por outro lado a própria existência de um governo ou estado nos lembra repetidamente e quase todos os dias que as outras pessoas não são de confiança.

Formas hierárquicas de organização encorajam os piores comportamentos tanto no sector privado como no público, encorajam a arrogância dos "chefes" e a apatia e a indiferença dos "subordinados".

E tudo isto para quê?

Qual o objectivo de toda esta produção, competição e consumo?

Falam-nos da cultura do negócio que não nos conta mais do que a sua própria história de inautenticidade e aborrecimento do local de trabalho. Personalidades da TV/internet/redes sociais fingem que a água engarrafada que consomem lhes trarão aquele preenchimento espiritual que "procuram".

O método desenvolvido pelo marketing que nos procura reduzir na vertigem de um consumismo sem sentido e que agora se infiltra naquilo que se poderia chamar de "entretenimento" revela não só o seu cinismo mas também a vacuidade de toda esta ventura. Para além do material o capitalismo não aponta para lado nenhum, não tem sentido. E um sentido é o que todos desejamos.

E nenhum governo o pode fornecer por muito bem intencionado que esteja.

Não há outra hipótese se não procura-lo nós próprios.

E isto ainda demora algum tempo a perceber-se.

Notas soltas traduzidas do livro The Leaderless Revolution ~ Carne Ross

Criado/Created: 23-02-2019 [12:27]

Última actualização/Last updated: 18-11-2019 [09:06]


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