✍ Por uma não insignificância

... da escolha

Corre a ideia numa certa direita libertária que os pobres deixariam de o ser no futuro se possuíssem o que hoje os ricos têm. Que a pobreza é um conceito relativo identificada não como mal mas como insignificância, i.e. sentir-se a pobreza como estando a milhas de distância, que melhor é estar longe de todos esses que vivem mal, em casas mal mobiladas, que usam roupa de qualidade inferior e que têm tão pouco orgulho que devem dinheiro e que o teimam em não pagar.

Neste modo de ver o mundo toma-se o consumo, a escolha, como uma opção ética, uma forma prática da abolição da diferença entre ricos e pobres. Iludir a vontade do outro deixando-o escolher parece ser nesta perspectiva uma forma prática, cómoda e pragmática de resolver o assunto e não pensar mais nisso. Permitir a quem tem menos recursos viver como quem os tem em abundância e atribuir a mais cobiçada de todas as qualidades humanas ao outro — o livre arbítrio. Ora o livre arbítrio apenas significa que as nossas acções futuras não são conhecidas e que e.g. o sol nascerá amanhã é apenas uma hipótese. Não sabemos de facto se nascerá.

O argumento, continua na mesma linha, é estatístico dizem, dos grandes números: "se todos formos pobres e um enriquecer, a pobreza relativa e o coeficiente de Gini aumentam. Já a pobreza absoluta, o que efectivamente importa, diminui.".

Não deixa de ser bizarro a justificação de um enriquecimento individual como sucesso da melhoria do estado colectivo de uma população. Se alguma qualidade tem esta ideia é o ser uma boa formulação da falácia do apostador.

Não. A pobreza não é uma insignificância e isto sim é uma escolha. O que essa direita não percebe na sua gana é a verdadeira liberdade que advém das restrições em que todos vivemos. Não temos recursos ilimitados (naturais e físicos), não podemos continuar a consumir desenfreadamente, o limite zero da pobreza não está arbitrariamente próximo para um consumo suficientemente grande. Quando o que houver acabar, aí sim não teremos o que escolher.

É ofensivo o argumento que teima em colocar no futuro na posse dos pobres o que hoje os ricos têm.

Palavras chave/keywords: escolha, pobreza, política

Criado/Created: 19-10-2015 [15:41]

Última actualização/Last updated: 23-01-2017 [09:19]


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1999-2017 (ç) Tiago Charters de Azevedo

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