Sidereus nuncius

Notas e comentários à versão portuguesa do livro com o mesmo nome de Galileu Galilei

Sidereus Nuncius

Comprei na semana passada a primeira edição em português (leia-se português de Portugal, não sei o que isso significa) do Sidereus Nuncius (SN) editado pela Gulbenkian (FCG) com tradução de Henrique Leitão.

Confesso que comprei o livro para o ler e não para ficar na estante. Ora, este facto faz de mim um amador ou um especialista? É uma dúvida genuína que tenho. Não sei ler latim e portanto devo ser um amador apesar de ser capaz de descrever o conteúdo do livro com bastante exactidão muito tempo antes de o comprar. Que qualificativo se deve dar a um tradutor que, no prefácio da obra traduzida, faz explicitamente a distinção entre aqueles que lêem o livro no original (em latim), os especialistas, e aqueles, imersos na sua ignorância, que lerão sempre as obras traduzidas. Se fosse literatura... mas não, trata-se aqui de descrições pormenorizadas de observações astronómicas e da sua difusão por todos. Aliás as afirmações do prefácio parecem difíceis de encontrar e de igualar noutras publicações com o mesmo objectivo; não estão nos textos fundamentais da Física Moderna da FCG que reúne trabalhos de Lorenz, Einstein e Minkowski, ou ainda no segundo volume da mesma colecção de Niels Bohr, no texto de Nicolau de Cusa "Visões de Deus" também da FCG, ou mesmo no de Giordano Bruno, "Acerca do infinito, do universo e dos mundos". Assim parecem-me esses comentários, à luz de outras comparações, despropositados e com propósitos pouco claros.

Estando os textos de Galileu disponíveis online na sua totalidade e sendo a presente tradução dirigida ao grande público, diga-se, culto e informado, segundo nota do tradutor, mas "desconhecedor dos meandros da erudição galileana", remete-se o grande público, do qual faço parte, pelos vistos, por muito interessado que seja, a gentileza de não ler o texto original de tão pouco conhecedor de tão orficos ofícios. Note-se que não me sinto menosprezado por fazer parte desse tão grande público, prefiro pensar que faço parte de um bastante mais pequeno.

Suspeito que, é muito ténue esta suspeita, que estas observações não são especificamente dirigidas para mim, ou para quem tem uma formação semelhante à minha mas a dúvida permanece.

Do objectivo de Galileu, em escrever um texto não especializado para poder ser lido por todos, e com experiências que podem ser repetidas por qualquer um, pode dizer-se que já se tinha cumprido em versões anteriores, em PT do Brazil, Inglês ou Francês, e para as quais um "desconhecedor dos meandros da erudição galileana" se serviu e muito bem.

Comentários: (via Facebook)

J M Cerqueira Esteves: Se "o livro da FCG, de Giordano Bruno" é o Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos, a introdução também não posso citar de cor, mas tenho claríssima recordação de quão refrescante foi há 20 e tal anos ler o texto de Bruno depois de atravessar a tortura daquela introdução — essa sim a parecer-me um pavonear de superioridade que-já-que-me-deram-uma-introdução-vou-arrevezar-a-linguagem-para-parecer-bem-e-meter-lá-tudo-o-que-conseguir. Mas a nacional academia dominante parece ter outros critérios para o que considera ofensivo...

tca: Obg.

Palavras chave/keywords: Galileu Galilei, Sidereus nuncius, Gulbenkian

Última actualização/Last updated: 2014-02-20 [14:38]


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